Tati Eckhardt Escritora: Coisas que a gente nunca esquece

Atualizado: Nov 4


Tem coisas que a gente nunca esquece...



Estilo de música que gosto: blues. Não tem muita explicação pra descrever gosto, não é mesmo?


A gente pode até se apropriar do gosto de outras pessoas através da convivência ou influência. Mas o importante para o autoconhecimento é perceber que aquele gosto, aquele estilo musical era de fato, nosso, quando depois de algum tempo sem ouvir, experimentar de novo aquela música, que o sentimento gostoso de bem-estar volta com força total.

Estou tentando criar novamente o hábito de escrever todos os dias. Quando eu consigo escrever algo que valha a pena, sinto o meu dia pago. É outra coisa que não tem explicação: como eu amo escrever, ler e contemplar a minha criação. E olha que sempre tem uma falha ali, outra lá, algo pra revisar e melhorar... Eu imagino como Deus deve ter ficado esplendidamente satisfeito ao contemplar sua criação, que é perfeita.

A arte sempre esteve em mim, desde a mais tenra idade, onde começo a me reconhecer como pessoa, por volta dos 7 anos.

Eu queria fazer algo que pudesse mexer com papéis. Eu me encantava com a secretária da escola. Ela tinha tantos papéis pra levar de um lado pro outro. Ela escrevia o tempo todo, vivia falando com a diretora, parecia tão importante.

Eu queria ser alguém que tivesse muitos papéis para mexer e escrever coisas. Mas não queria ser secretária. Eu via aqueles livros impressos e achava que era coisa de outro mundo. Me apaixonava quando ganhava algum livrinho que meus pais compravam com a maior dificuldade.


Nunca tinha visto alguém que tivesse escrito um livro na vida. O mais próximo que eu via era meu pai fazendo planilhas de carga horária de trabalho para contar horas extras que fazia e poder confrontar o RH se tivesse algum erro. Meu pai era motorista de ônibus e anotava todas as escalas que fazia. Eu achava aquilo o máximo!

Ele tinha um "diário de bordo", sempre que acontecia alguma coisa diferente como um passageiro querendo esfaquear ele, por exemplo, ou algum tiroteio, enfim, coisas do gênero pra quem morava na cidade mais perigosa do Rio de Janeiro.

Enfim, voltando para os papéis, e de vez em quando, minha mãe escrevia receitas num caderno enfeitadinho. Ou então quando me reunia com meus primos pra jogar "Adedonha",(também conhecida como stop hoje em dia) ou seja, não tinha muito além disso. Eu achava que, quem escrevia livros, vivia num mundo à parte. Era tão inalcançável que eu nunca veria os "donos" daqueles livros.

Quando fui à Bienal do Livro pela primeira vez, num passeio da escola, eu tinha por volta de 10 anos, eu não acreditava que sonho era aquilo! Era melhor do que parque de diversões, que eu amava.

Eu me lembro como se fosse ontem: Eu vi uma escritora que estava autografando seus livros na sessão infantil. Seu nome era Stela Carr. Eu achei aquele nome curioso e fiquei um tempinho por ali. Eu não pedi autógrafo porque tinha vergonha mas também não tinha nenhum livro comprado. Como sempre quando eu saía, eu ia só pra olhar, com o lanchinho na mochila pra aliviar a fome, sem almoço, sem suco. Mas eu estava feliz, aquele passeio foi incrível.


Depois de muito tempo, eu já tinha 17 anos e uma amiga da minha mãe ia jogar fora um monte de livros. Então ela perguntou se eu queria. Todo mundo sabia que eu amava livros. Eu pegava até livros didáticos infantis pra cortar as figurinhas e fazer adesivos. Levei um monte pra casa: eis que no meio daquele monte de papel achei um livro da Stela Carr.

Eu li e guardei com carinho. Era um livro infantil, logo não teve graça, mas aquele momento foi simbólico. Parecia que o universo mandava sinais pra mim. Naquela época eu escrevia sem parar. Estava escrevendo um livro de poesias, vários contos e ainda uma autobiografia.

Eu me lembrava até da assinatura dela. Então caprichei. Assinei o livro imitando a assinatura dela com direito a uma dedicatória muito especial a mim. Esse livro ficou guardado por um tempo até que foi levado pela enchente. Eu perdi tudo que eu tinha, desde livros, fotos até documentos.


Os livros se foram, mas a história ficou.

Eu recordo com carinho todos os momentos que um dia eu vivi na companhia dos livros e como eles me deram esperança de uma vida melhor. E hoje estou aqui: sou escritora. Ainda não vivo somente da minha arte, mas… quem sabe um dia eu seja também a inspiração para alguma outra menina que quer vencer na vida, sair da sua casinha de palha e conquistar o mundo?