Tati Eckhardt em...Um dia de fúria!


Inspira... Expira... volta pro eixo!

Penso, logo, sinto raiva, muita raiva.


Tô com raiva até do meu diário!


Foda. Ontem eu tive um dia péssimo. Passei mal o dia todo. Tive crise de enxaqueca e o pior de tudo é a sensação de que não faz a menor diferença pra ninguém a não ser pra mim. Nem mesmo a médica que era pra me ouvir, que o diagnóstico dela seria a partir do meu relato, deixou a impressão de que eu só poderia falar num período de 20 minutos, depois foi me apressando, mesmo eu estando com meu raciocínio totalmente lento, e ainda por cima saí de lá envergonhada por ter insistido pra falar, e ainda ficou muita coisa que eu gostaria de saber.



A roda continua a girar e eu sou somente a vítima ou um objeto de teste da seleção natural, onde a pressão do ambiente se impõe sobre mim e eu sucumbo, em algum momento, por mais que eu resista. Foda-se que estou passando mal, foda-se se não suporto mais fazer mil coisas ao mesmo tempo como eu achava que eu conseguia antes. Que na verdade não conseguia. Consegui sim, foi chegar ao fundo do poço, sem vontade de viver, pois tudo era a custo de muita dor e sofrimento, desgaste físico e emocional, que acarretou negligenciar minha filha por longos anos. Ou era dar atenção a ela ou pôr comida na mesa. Eu tinha que escolher somente uma das coisas. Nunca foi possível ter as duas.



O que sei disso tudo é que sinto raiva o tempo todo. No momento, só continuo respirando, e suspirando, canalizando tudo isso para um aprendizado, autoconhecimento, escrita, e mudança de paradigma para, justamente, eu mesma, em algum momento, poder mudar essa minha realidade.



Enfim, era só pra comentar o meu dia, que ninguém está a fim de ouvir. Pois não importa se uma mulher tem cólicas, ou imensas dores físicas ou emocionais, se ela parar, certamente já andou pra trás, foi empurrada numa torrente de injustiça e machismo estrutural dessa sociedade de merda. Saber que vivo presa dentro dessa realidade é uma das minhas maiores dores. Mas não me permito desistir. Tenho raiva o tempo todo.



Esse fogo que me consome sempre existiu desde que me entendo como gente. Quando criança, eu ficava sem dormir imaginando pessoas passando fome em qualquer parte do mundo. Meu maior medo quando era criança era morrer de fome. Eu sentia muita dor no estômago quando tinha fome, então imaginava essa dor de morte desde muito cedo. E rezava por crianças da minha idade que estavam morrendo de fome.



Eu fazia uma cesta básica, não esquecia nenhum alimento, eu sabia já o que tinha em uma cesta básica, era o básico, e eu colocava até umas coisinhas a mais que eu também tinha vontade de comer, e entregava depois do pai-nosso e a ave-maria, e tinha certeza que pelo simples fato de eu rezar, as coisas iriam se resolver no Nordeste e na África, (que era de onde vinha a notícia de miséria total), como num passe de mágica. Então eu me sentia responsável de rezar sempre que eu podia. Eu achava que cada vez que eu rezava, eu salvava uma criança. Tola criança, não sabia de nada desse mundo, tão inocente...



E olha que eu ainda nunca tinha tido a experiência de comer o que eu quisesse. Nunca tinha me passado pela cabeça comprar o que eu tivesse vontade de comer. Nós tínhamos fome e comíamos, simples assim. E a fome dava sabor a qualquer alimento que viesse no prato. Instinto básico de sobrevivência, era simples assim. E pode sim existir muita gente que sai da miséria e para de pensar nos menos favorecidos, pode até ser que eu tivesse algum tipo de dom desde criança, mas acho pouco provável. Acredito todos temos dons e que podemos sim exercitar a compaixão, mas é muito certo uma pessoa só se importar, quando sente na pele, quando passa por experiências similares.



Enquanto escrevo e leio sobre feminismo, igualdade, liberdade, fraternidade, eu choro. Sinto raiva o tempo todo e tocar em alguns assuntos me dói, mas cansei de falar pra pessoas que nunca vão realmente querer ouvir a minha história. Espero que um dia alguém leia isso, se identifique ou, pelo menos, se importe. Não sei se isso resolveria meus problemas, mas ter a ideia de que alguém se importa é reconfortante.






Vivo a injustiça marcada a muitas rugas e cicatrizes na minha pele cansada. Tudo que descubro através de meus estudos, e também sobre mim, vou vendo o quanto eu fui passada pra trás e coisas que nunca mais terei oportunidade de realizar por que fui jogada pra fora da "esteira da Alice". Meu sonhos, eu não desisti, fui cerceada, ceifada nas minhas escolhas, nas minhas expressões, muita coisa foi tomada de mim e eu ainda sinto muita raiva.



Você acha que não existem gênios na favela? Mulheres inteligentes que acabam por parar de pensar até se sentirem tão burras que não conseguem olhar nos olhos de uma pessoa pra dizer o que realmente elas são. Quem você é e no que você acredita? Ter vergonha de falar sobre um pensamento, uma conquista e ter orgulho disso. Ter que se esconder em meio a afazeres inúteis que se acha obrigada a fazer, pois tem uma vozinha lá dentro dizendo, uma boa mulher não deixa isso assim, ou eu tenho que pagar por existir, estou ocupando sempre o espaço de alguém, sempre servir e servir sem cessar e ainda tenho que sorrir e fingir que amo essa vida?



É lógico que existem coisas na minha vida que considero como boas conquistas, mas nada de bom que eu conquistei muda o fato de que tudo isso ainda existe.



Quero mudar minha ecdise, será que depois desse casulo eu conseguirei voar? Quero tudo ainda nessa vida. E se a seleção antinatural não me destruir antes, sempre saberei de uma coisa: sou extremamente adaptável para viver em qualquer ambiente, tenho gabarito suficiente pra ter essa certeza, mesmo se eu estiver num ambiente inóspito, mas nunca, jamais me conformarei com nada mais que o melhor pra mim. Eu chego lá ou morrerei tentando! Mas ainda sinto muita raiva...

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