Diário de uma Bi: Nise da Silveira, Uma Mulher à Frente do Seu Tempo


"Debaixo desse corpo frágil existe um cangaceiro", palavras de Nise da Silveira

Florianópolis, 15 de fevereiro de 2020.


Olá, meu querido diário! Tudo bem com você?


Hoje eu quero falar de uma mulher foda.


A pouco tempo descobri quem é Nise da Silveira. Vi um filme, estrelado por Glória Pires, indicado por Rita Von Hunty e Mari G, do Canal do Youtube, o Tempero Drag, onde falava de uma série de mulheres foda da história. Daí, percebi o porquê de eu não ter conhecido antes essa mulher incrível que contribuiu para a medicina no Brasil e no mundo.



Eu não conheci antes, simplesmente por que mulheres não são contadas na história. Sempre aparece um homem que fez uma grande coisa, mas as mulheres foram escondidas, jogadas pra escanteio ao longo da história. Mas as coisas começaram a mudar e fico feliz quando vejo um doodle do google homenageando uma mulher, e aí que eu também quis fazer parte disso. E estou aqui, meu querido diário, pra fazer minha humilde contribuição, fazer memória de uma mulher foda. Então vamos lá...



Hoje é o 115º aniversário de Nise da Silveira. Uma mulher que foi médica psiquiátrica brasileira que revolucionou o tratamento de pacientes psiquiátricos. Ela era contra tratamentos agressivos com eletrochoques, lobotomia e coisas similares . Ela chamava os pacientes de clientes. O tratamento dela era humanizado e a pequena equipe dela contava com ninguém menos do que a artista, cantora, compositora, Ivone Lara, que antes de ser a artista consagrada do samba, era enfermeira e assistente social que auxiliava Nise no tratamento dos clientes.



Nise da Silveira, foi uma mulher à frente do seu tempo, sofreu muita discriminação por ser uma mulher no meio acadêmico e principalmente no trabalho nos hospitais psiquiátricos. Ela foi presa por 18 meses, por ter livros acadêmicos, marxistas, que eram considerados comunistas. Na prisão, estavam junto dela diversos intelectuais da época, e também Graciliano Ramos, que fez uma personagem de seu livro Memórias de um Cárcere, baseada nela.



Quando foi reintegrada ao trabalho, continuou sua luta contra tratamentos agressivos que eram feito nas enfermarias, com isso, ela foi transferida para um setor onde ninguém se interessava. O setor estava abandonado e isso foi mais uma forma de jogar Nise da Silveira de lado, escondida numa sala cheia de entulhos, dentro do hospital no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Em 1946 fundou ali a "Seção de Terapêutica Ocupacional".



Até então, a terapia ocupacional da época era dada com trabalhos forçados. Os pacientes eram obrigados a limpar os corredores do hospital fazer a manutenção do prédio e viviam apanhando quando não obedeciam. Quando ela tomou a frente, criou ateliês de pintura e esculturas em argila, com a intenção de dar aos doentes mentais a possibilidade deles criarem vínculos com a própria realidade. Ao promover a expressão artística de seus clientes, que era a forma deles se comunicarem, se expressando através da arte, Nise da Silveira, com toda a sua dedicação ao trabalho, revolucionou a história da Psiquiatria.



Ela foi a pioneira na psicologia Junguiana no Brasil, por ter sido aluna de Jung, que com seu trabalho, lendo os estudos de Jung, ela viu semelhanças entre a teoria dos livros e a prática que experimentava com seus clientes. Ela enviou cartas para ele, que imediatamente se interessou muito pelo seu trabalho e convidou-a para participar dos estudos. Ficou conhecida mundialmente por seu trabalho. Fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro.



Ela também criou a Casa das Palmeiras, uma clínica voltada à reabilitação de antigos pacientes de instituições psiquiátricas, onde podia se expressar a sua criatividade e poderem ser reintegrados novamente na sociedade.



Apesar de toda torcida contra, de ter sido tão sabotada por uma maioria de médicos homens brancos cis e héteros, em sociedade machista e patriarcal, ela nunca perdeu a fé na humanidade e a sensibilidade de perceber que o outro merece também ser livre e feliz.


Por hoje é só!



Até breve, meu querido diário!💋