Diário de uma Bi: existe TPM ou é frescura?

Para amenizar os sintomas da TPM se faz necessário trabalhar o autoconhecimento e a autoaceitação

Florianópolis, 24 de junho de 2020.

Olá, meu querido diário!

Eu aqui, ouvindo louvor católico e comendo chips de mandioca com café, relaxando… depois de ter sofrido espécie de crise de ansiedade, nem sei bem o que aconteceu. Larguei tudo de repente, saí e fiquei rodando na rua andando de bicicleta e máscara, porque você sabe né? Pandemia, quarentena, cinquentena, sessentena



Óh, que lástima! Sem ter pra onde ir e nem ao menos saber o que fazer. Nada estava bom. E tudo ficava pior à medida que eu ia me culpando de estar me sentindo assim porque sei que, mesmo que o meu trabalho esteja em risco se eu não produzir, existem milhares de pessoas que estão passando por situações piores e que nem sequer têm o privilégio de se proteger numa quarentena.

Com medo dos meus atrasos e a iminente constatação de que meus métodos de organização e produtividade compassiva estavam indo por água abaixo, fiquei mais atrasada ainda, já que larguei tudo na metade da manhã. E o ciclo de pensamento acelerado crescendo exponencialmente...

Quando eu voltei pra casa (que não é a minha) pensei em como os nossos sonhos vão ficando cada vez menores. Vamos diminuindo as expectativas em relação à vida. No momento dessa crise, só o que eu pensava era em ter uma casa pra chamar de lar e nunca mais fazer mudança na minha vida. Uma casa e uma quantidade de dinheiro que me pudesse manter o mínimo de conforto, onde eu não precisasse ficar calculando e rodando todos os mercados pra comprar comida mais barata, que no fim não adiantaria muito: o pouco que se acaba economizando é gasto com algo sem relevância pela saciedade do consumo, a sensação de poder comprar alguma coisa só pra si. Um ópio para anestesiar a miséria que, no fim, faz com que a vida se torne mais miserável.

Procrastinei, me sabotei e larguei tudo. Dei um breve foda-se para repensar os meus hábitos. Percebi alguns gatilhos também que estão me fazendo sair da minha dieta. Ou mesmo parar um processo criativo, pra resolver qualquer outra coisa menos importante.

Que saco! Saudade da minha família. Mais que saudade. Preocupação e tristeza, sempre em alerta a espera de alguma notícia ruim. Afinal, sou totalmente impotente em relação aos cuidados dos meus familiares. Saudade do meu paizinho. Sinto saudade da Igreja, sinto saudade da renovação carismática, sinto saudade do primeiro amor com Jesus. Saudade desse desabafo, meu querido diário...

Estou cansada de tanta exposição e até mesmo fingir que estou bem quando não estou, pois ninguém aguenta ver alguém triste não é mesmo? Principalmente quando estou me sentindo um lixo e tenho que levantar e motivar as pessoas, embora isso seja algo que acaba me levantando e curando também.

Porque será que ainda me sinto tão sozinha? A minha vida é muito difícil e isso tenho que reconhecer. Não dá pra negar. Mas mesmo assim, mesmo me sentindo só, me sabotando, me pondo pra baixo, fica uma faísca, um foguinho, um fio de esperança no meu coração por algo novo de Deus. É a Fé, não tem muita explicação. É dom de Deus. Mas parece que tem algo de errado comigo. Deve ser algo patológico. Tem sim, algo estranho…


Enfim, essa sou eu, na TPM.

Simplesmente incontrolável, pensamentos que não são meus mas que estão lá no subconsciente e que vêm com toda força neste período. Não é sempre, algumas vezes vêm mais amenos, outras vezes tenho que me afastar de todos para não magoar ninguém pois fico irada. E muitas vezes só vou me dar conta quando começo a perceber que tem algo realmente errado e quase irracional, me atrapalhando no trabalho e em todas as minhas relações. Muito mais do que psicológico, é químico, é bioquímico.

Uma injustiça biológica! Quem liga? O patriarcado? Muitas pessoas ainda pensam que TPM é frescura de mulher. Temos que fingir que estamos bem para não demonstrar fragilidade:

“A roda não pode parar de girar! Quem não produz, fica pra trás! Trabalhe enquanto os outros dormem se quiser ter sucesso!”

Mais uma vez, uma mulher ficando pra trás no mercado de trabalho, na luta pela sobrevivência/independência. Bem, o que me resta é o foda-se. Não vou me machucar e desenvolver Síndrome de Burnout novamente. Simplesmente preciso desacelerar ou parar mesmo por esse período e tenho que aceitar essa minha limitação principalmente nesses tempos difíceis de pandemia que estamos passando, onde os problemas ficam maiores e mais difíceis.

Por isso é tão importante se conhecer. Viver é um processo. Autoconhecimento para uma vida plena. Não tem jeito! Esse é o caminho. Se quero estar na arena da vida, ser a protagonista da minha história, devo não só me conhecer, mas também me aceitar, e repetir: não sou de ferro, não tenho obrigação de ser supermulher, não mais! Não importa o que aconteça, eu mereço ter compaixão comigo, da mesma forma que tenho com outras pessoas.

Eu preciso me amar mais! E iluminada por essa verdade, começo a me sentir melhor e em paz.


Obrigada Senhor, Obrigada Mãe, por mais um dia vencido.


Obrigada, meu querido diário, por me ouvir.


Até alguns dias, certamente mais animadinha, no meu estado normal.

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