Crítica: Nada Ortodoxa, por Tati Eckhardt

Atualizado: Mai 18


Shira Haas, protagonista de Nada Ortodoxa: Minissérie da Netflix

Terminei de ver a minissérie Nada Ortodoxa ou Unorthodox, da Netflix e vou colocar minhas impressões sobre alguns aspectos abordados na história. Fique tranquile que não tem spoiler.😉

Desde a primeira vez que a Senhora Netflix me sugeriu esta minissérie, achei interessante mas eu queria encontrar o momento oportuno, pois queria ver com calma e sozinha. Decidi que essa seria uma das séries que eu assistiria durante minhas férias. Finalmente esse momento chegou e hoje vi o último capítulo, num dia frio e chuvoso, bom pra se enrolar debaixo das cobertas e curtir a Netflix.



Bem, por ser uma minissérie, seria rápido demais ver tudo de uma vez. Tenho isso comigo, gosto de absorver ao máximo quando vejo algo que me interessa, ou quando leio um livro incrível eu demoro pra terminar, fico ali prolongando o fim. Nesse caso, o que pude fazer foi assistir a um capítulo por dia.



Eu confesso que não imaginava o quão impactante seria para mim. Mergulhei na história e me apaixonei por Esther Shapiro (Shira Haas). Uma menina forte lutando para se encaixar, para pertencer a algum lugar.

A produção é baseada em uma história real contada na autobiografia de Deborah Feldman. Eu nem sabia que tinha algo de real nisso tudo, o que tornou mais interessante ainda, na minha opinião.



Ok, vamos à Esther, ou Esty, para os mais chegados.

Bem, ela é uma jovem de dezenove anos que cresceu numa comunidade Ultraortodoxa do judaísmo hassídico, em Williamsburg, no Brooklyn, Estados Unidos.

A comunidade é composta por sobreviventes do Holocausto e seus descendentes, o que traz algumas características diferente das outras comunidades do mesmo tipo. O trauma vivido por estes sobreviventes, é a causa de tornar as crenças e imposições mais severas ainda, depositando na mulher, o desempenho de um papel estrito que é o de obedecer e procriar, repondo, como uma compensação para Deus, os 6 milhões de judeus que foram assassinados na Segunda Guerra Mundial pelos nazistas.


Esty é criada pela avó, uma sobrevivente do Holocausto.



As imposições para compensar o passado estavam à frente de seus desejos e de seu bem-estar.

Ela se casa com Yank, um rapaz devoto, e após um ano de tentativas frustradas de ficar grávida e questionamentos sobre o que lhe era ali imposto, ela decide fugir para Berlim, Alemanha.


Quando Esty conhece o grupo de amigos músicos em Berlim, aos poucos, ela vai experimentando e entendendo elementos da cultura deles. Ao mesmo tempo, eles vão quebrando preconceitos com a cultura dela. Ali, ela descobre que muito do que lhe foi ensinado cai por terra, pois ela percebe na prática que suas regras na comunidade lhe são impostas por pura imaginação ou mesmo, mentira para manter as pessoas dentro da comunidade.

Em Berlim, vivenciando um mundo completamente diferente, Esty luta para sobreviver e se questiona todo o tempo, pensando por si mesma sobre as crenças e imposições que viveu em toda sua vida. Ela passa por uma jornada de autoconhecimento para defender seus sonhos e ir contra uma realidade machista e limitante, na qual ela nunca se sentiu pertencente.


A partir da série também é possível pensar no lugar das mulheres nas religiões, que em sua maioria rebaixam a figura feminina completamente.

Uma cena que me marcou muito e que revela o machismo e também a misoginia enraizada em muitas comunidades foi quando ela questiona o marido, Yanky, que a pressiona para ter filhos, sobre o seu papel na relação sexual depois de uma tentativa dolorosa na transa, se é que pode se dizer isso. Era, na verdade, somente a tentativa de penetração, porque transa mesmo, sexo, troca, não havia, era simplesmente dramática e deprimente. Esty sofre de vaginismo. Não me admira nada ela ter tido vaginismo, onde uma das principais causas é a repressão.

Daí, ela justifica que segundo o Talmude, um dos livros sagrados para os judeus, o marido deve fazer com que a esposa sinta prazer durante o sexo.



(Prazer, será que precisa desenhar?!)

Mas ele fica assustado e grita com ela por que a mulher é proibida de ler o Talmude. Hum, por que será né?! Será que era porque certas regras rebaixavam a mulher a ponto de serem como coisas, ou escravas, obedientes aos seus maridos e pais através do medo e ameaça de se tornarem impuras perante Deus e condenadas ao inferno por pensarem por si mesmas.

É evidente que ela sabia que aquilo não estava certo. Ela só queria ser feliz e aquilo ali estava longe da felicidade, por mais que ela se esforçasse para fazer tudo o que lhe mandavam, por mais que tentasse se encaixar.

Enfim, em Berlim acontecem muitas coisas interessantes que vale a pena assistir. Eu vi tanta verdade, a atriz tão dentro da personagem que me transportou para lá. Senti aquela angústia, aquele sufocamento, mas também as alegrias da descoberta de um mundo real, e da liberdade possível ali, da autonomia conquistada a cada dia, do autoconhecimento, de se perceber tendo voz. Uma coragem venerável de lutar por seus sonhos de liberdade.

Uma obra que me tocou do início ao fim, expressando a verdadeira essência da arte. Não foi à toa que esta série ganhou diversos prêmios: Melhor Direção, Melhor Minissérie e Melhor Atriz. Pra quem gosta de uma bela história de cultura, eu recomendo fortemente.



Nada Ortodoxa é uma verdadeira obra-prima!